22 de abril de 2008

NÃO, NÃO É NORMAL

O actual Secretário de Estado dos Desportos (creio que a designação andará por estes lados) declarou ter herdado uma dívida de 2 milhões de euros, do governo Santana Lopes, destinada a subsidiar as corridas de fórmula 1 de um piloto português. Pareceu-lhe "normal" honrar este compromisso, além das consequências jurídicas que teria não o fazer. 400.000 contos, em moeda antiga, para a gasolina do menino.
Se houvesse alguma dúvida sobre a imbecilidade irresponsável de Santana Lopes, bastaria isto. Infelizmente não há. Num país civilizado, a quantidade de actos danosos praticados por este político já o teriam metido na cadeia. Cá, "é normal". A tal ponto que já está de novo, no parlamento (e até "pondera" voltar a candidar-se à liderança - por assim dizer - do seu partido).
Mas voltando aos 2 milhões de euros, quando penso na relutância em se apoiar uma bolsa literária de mil euros, com a desculpa que bem podem os escritores ir trabalhar que quando voltarem para casas ainda lhes sobram muitas horas para a brincadeira, e que permitiria fazer um bocadinho de luz neste mundo confuso, não sei que diga... Ou que não quando não apoia atletas de modalidades menos televisivas e que insistem em ganhar medalhas de ouro. Que gente é esta, que propõe o luxo e nega a necessidade? Que gente é esta que "honra compromissos" com a futilidade, mas não os assume com quem aumenta a qualidade deste país.
Eu disse "pais"? Pois disse. À falta de melhor expressão.

20 de abril de 2008

INDIE

Começa na próxima semana.
É sempre espantoso o que uma equipa mínima consegue fazer. Está cada vez maior nas apostas e reconhecimento nacional e internacional. Do meu ponto de vista, é um case study nacional, porque conseguiu em 4 anos (5 edições, com apoios mínimos institucionais (lembre-se que em todos os concursos, anteriores a 2007,de apoio à elaboração de festivais de cinema, recebeu muito menos do que, por exemplo, Vila do Conde (curtas) ou Fantasporto (cinema fantástico))tornar-se no festival com mais público do país. E os festivais não se fazem para os amigos, fazem-se para as pessoas.
É verdade que estar em Lisboa, onde os jornalistas quase todos moram, gostando a a maioria muito pouco de se mexer, ajuda. Mas está longe de ser a razão principal. Qualidade e trabalho são o segredo deste sucesso. Nacional e internacional. Este ano, por exemplo, as extensões previstas chegam a 8, em diversas cidades europeias e americanas.
Nem foi preciso gastar o dinheiro dos apoios em publicidade paga na Variety, ou em stands de luxo, em Cannes. Foi só preciso trabalhar... e perceber de cinema.

Mais informação aqui.


ps: claro que o melhor do festival é o IndieJúnior. Mas não contem o segredo à imprensa ;)

18 de abril de 2008

QUASE UMA DA MANHÃ

Tenho uma encomenda de texto em atraso. É tarde na noite. Para quem teve pouco tempo para dormir, a madrugada passada.
Tenho um texto para escrever.
E só uma frase: "No meio de uma sala a cheirar a cera, há uma gaiola dourada com uma mulher dentro"...

16 de abril de 2008

CONRAD

Por razões misteriosas, o livro O CORAÇÃO DA TREVAS, do Joseph Conrad, escapou-me todos estes anos. Andou ali pela prateleira, em edição de saldo, e nunca o tinha lido. Conhecia outras obras do autor e a devoção que tanta gente tem por ele. Mas não tinha calhado.
Peguei-lhe agora. E, embora, a tradução me pareça fraquita, basta uma descrição destas, para um escritor/leitor se pôr de joelhos:

"Uma rua estreita e deserta que mergulhava em profunda sombra, edifícios altos, inúmeras janelas com persianas, um silêncio de morte, erva a crescer entre as pedras da calçada, à esquerda e à direita imponentes entradas de carros, portas imensas de dois batentes, sinistramente abertas."

15 de abril de 2008

A DESCOBERTA DA PÓLVORA QUANDO ELA NOS ESTOURA NA CARA

Um pateta apresentava na tv, uma notícia de telejornal que começava assim: "Há AGORA um novo fenómeno nas escolas chamado "bulling", a violência de alunos contra outros alunos". Na verdade, a notícia deveria ser: "Há agora um novo tipo de jornalistas chamados "ignorants-no-brain-at-all".

Só alguém muito estúpido, ou muito distraído, pode pensar que o bulling é um fenómeno novo. Como se diz nos livros fraquinhos "desde tempos imemoriais" que rapazes torturam rapazes e raparigas outras raparigas, pelas mais diversas razões. Por serem gordos, ou feios, ou filhos de pais divorciados, ou pobres, ou efeminados, ou masculinizados(as), ou apenas por serem mais fracos e não se saberem ou poderem defender. As torturas podem ser físicas (como um rapaz transmontano que um dia me escreveu) ou psicológicas, ou um misto das duas. Desde sempre que pudemos encontrar miúdos encolhidos em recantos escuros da escola, à espera que toque para entrar, ou que todos já estejam vestidos no balneário, ou a correr para casa, antes que seja tarde de mais.
Sempre assim foi e, provavelmente, sempre assim será. Porque a infância e a adolescência não são apenas aquela coisa perfumada e inocente em que gostamos de acreditar, mas sim, a porta de entrada da crueldade ou da bondade humanas. Apenas com menos filtros. Como o tabaco em bruto.
Eu próprio fui vítima de bulling entre o 8º(2 vezes) e o 9º anos. Passei de melhor aluno da turma, a pior, do mais alegre ao mais calado. Fui perseguido e torturado psicologicamente por vários grupos de indivíduos, "inocentes-a-precisar-de-recuperação", como o ministério da Educação agora os definiria - que aproveitavam todas as oportunidades para me fazer sentir que não passava de uma nódoa insignificante no passeio. Estou hoje, aqui, vivo, apenas porque calhou. Porque a vida deu uma súbita guinada para o lado feliz, quando eu já não pensava senão em acabar comigo. Conto isto, sem particular nota de dramatismo, porque conheci tantas e tantas pessoas que passaram pelo mesmo. Era normal, nesse tempo. Algumas delas não se aguentaram e, da terra de onde venho, o suicídio não é uma palavra estranha.
Não, senhor jornalista, o "bulling" não é novo. Só a palavra. Antigamente chamava-se era "crueldade".

12 de abril de 2008




Estive a pensar o que dizer sobre o dia de hoje. Encontrei esta imagem.
O tipo descalço fora do quadro sou eu.

8 de abril de 2008

ENCORAJAR

Leio no rodapé de um jornal televisivo que o ministro da Cultura iniciou a sua estratégia de encorajamento às artes. Parece-me bem. Tenho defendido desde há muito a necessidade de se descer do palácio de Queluz aos ateliers dos artistas, já para não dizer subir aos andares elevados das zonas pobres da cidade, onde a maioria habita.
O novo ministro começou por dirigir uma palavra de apreço aos galeristas "por fazerem a ligação entre a Cultura e as Finanças". Bom, esperemos que depois de despachada a agenda pessoal sobrem incentivos vocais (ao menos) para quem DE FACTO cria.

7 de abril de 2008

FIZ ANOS, OUTRA VEZ

Raios partam a ocorrência. Enfim, adiante. Em última análise, sempre sobra o bolo e o vinho que os amigos trazem para o jantar. Sobra, igualmente, a pilha de pratos para lavar, para os que têm a mania que a comida só existe sobre pratos de louça, não reconhecendo a existência ao plástico.
À medida que o tempo passa, as nossas características tornam-se mais claras. O que somos, o que fomos, e o que queremos ser amanhã, que é o dia antes de depois-de-amanhã. Uns sonham tornar-se ricos e conhecidos. Outros esperam apenas reconhecerem-se ao espelho. Olharem o reflexo e verem a pessoa íntegra e solidária em que todos os dias trabalham para existir ou manter-se.A coincidência entre o que idealizam e a realidade. Com menos peso ou cabelos brancos, ainda assim.
Fiz anos, outra vez. Raios os partam. Tantas vezes 26, já chateia. Mas ao mesmo tempo, tenho vontade de rir, porque a brincar, a brincar ainda flutuo à superficie.

3 de abril de 2008


UMA DOSE DE PERSISTÊNCIA, APARECER NO LUGAR CERTO E UM CARÍSSIMO LOOK TRENDY....

São os ingredientes para triunfar nos meios culturais portugueses. E perceber que a notícia do desaparecimento de uma iniciativa ou da perda de um lucrativíssimo lugar de chefia, são sempre altamente exageradas.
A Experimenta Design acaba de assinar um protocolo com a Câmara de Lisboa e com o Ministério da Cultura que assegura ao evento 2, 7 milhões de euros para as 2,5 edições (a próxima é uma parceria com Amsterdão).
E ainda há quem diga que pagar cabeleireiros caros e fashion designers, e aparecer em todas as reuniões públicas entre o Poder e a cultura, não resulta.
Viagens em executiva, mundo fora: here I go!

PS: a minha frase favorita no site é "Não será demais voltar a dizer que a ExperimentaDesign – Bienal de Lisboa é:"

29 de março de 2008

EDUCAÇÃO: OS PAIS PODEM AJUDAR!

Estamos todos de acordo: a educação em Portugal depende dos pais.
Por isso, depois de uma grande consulta aos seus associados, a Associação de Pais Relax de Portugal, lançou este spot, que contém todos os valores que interessam aos Novos Portugueses.
E... Em Inglês, porque como toda a gente tinha tido nega a português, prontos... como que a gente havemos de explicar isto mais bem...?

NEM TUDO ESTÁ PERDIDO

No meio de todo este clima de acusação de que as escolas estariam cheias de putos ignorantes, a nossa juventude já se organizou. Depois de dias e dias de pesquisa em sites da internet, apresentam este... relatório. Ainda há esperança!



27 de março de 2008

NA MORTE DOS NOSSOS BICHOS

A coisa não começou bem. Era Maio de 98 e o cachorro não parava quieto na casa de cartão maravilhosa que se lhe tinha arranjado para a viagem. Não tinha feitio para estar preso e viajar de carro 150 km não era bem a sua ideia de divertimento. Restava pouco do cão fofinho e branco quando lhe peguei, amaldiçoando a hora em que me tinha lembrado de arranjar um cão para a minha filha; vociferando com os deuses por terem criado uma raça de intestinos e paciência obviamente moles. Sujou a caixa em que vinha, sujou-me os assentos e deve-me ter sujado a mim. Mas o final da viagem foi mais tranquilo com o Droopy a dormir com a cabeça na minha perna. Sem cinto, claro.
E assim começou tudo. No meio do campo, entre sobreiros e ervas. Um caniche que se imaginava um cão-pastor e muito maior do que na realidade era. Nunca teve medo de rafeiros alentejanos, emprenhou altíssimas cadelas e a sua mancha branca vai-me aparecer sempre, como um fantasma pelo caminho de terra que conduz à casa.

Quando os bichos nos morrem, muitos anos depois de termos decidido corresponder ao seu afecto sem reservas, nunca se consegue bem explicar aos outros humanos, que foi mais um amigo que se perdeu. A morte é sempre pessoal, por isso toca os outros de uma forma mais mitigada. E ainda bem que assim é, porque alguém deve sobrar para nos consolar.

Corre, Droopy, corre. Pelo meio das ervas que algures estarão reservadas para ti, debaixo de um céu qualquer que a gente já não consegue ver. Ladra contra os gigantes e faz a tua vida, para sempre independente. Mas que alegria, amigo, se quando chegasse a nossa hora te víssemos vir a correr, feliz, ao nosso encontro...

24 de março de 2008

UM BOCADINHO DE MÚSICA COUNTRY PARA QUE NÃO SE PENSE QUE ESTE NÃO É UM PAÍS PARA VELHOS

O PROBLEMA DA INVISIBILIDADE

Grande cagaçal à volta do coming out da apresentadora do Curto-Circuito, da Sic Radical. Quem costuma ver o programa (ainda que, por questões etárias, apenas de vez em quando) sabe que é uma das mais antigas e competentes apresentadoras do CC.
Os comentários no site do Expresso são mais do que reveladores da razão pela qual a Solange fez muito bem em vir dar a cara. A maioria prima por afirmar que "isso é um problema dela" e que "não deveria vir falar do assunto, porque se fosse heterossexual, também não vinha". É verdade. O problema é que essa "invisibilidade" também é uma forma de preconceito. Um rapaz e uma rapariga que se beijam no Metro será quanto muito "uma chatice". Duas raparigas "um escândalo que tenta convencer o mundo inteiro a ser gay".
Oh, valha-me Deus...
A Solange fez muito bem em vir dar o seu exemplo. Para que os milhares de raparigas que sofrem, caladas, no meio das suas famílias e amigos, abram os olhos. Que se limitem a ser elas. Quer eu goste, quer não. Dizer até que já ninguém tenha paciência para dar importância ao caso. Até que se vulgarize o que nunca deveria ter sido invulgar: a singularidade do espírito humano.

ps1: mais corajoso do que ter vindo dizer-se lésbica, foi o facto da pobre rapariga ter resisitido à produção de moda que lhes fizeram. O Expresso está definitivamente a tentar ficar para a História como o jornal com as produções de roupa e cabelos mais nojentas do planeta.

ps2: Epá... Este comentário foi um bocado gay... Alto será que não tenha o Expresso à perna a perguntar-me se não quero tirar umas fotografias vestido de Carmen Miranda para o próximo número ;)

21 de março de 2008

PROFESSORAS E TELEMÓVEIS

(Suspiro) Palavras para quê? É uma aluna portuguesa e usa pasta medicinal ANALFABETA PARA A VIDA. Não se agarra aos livros, mas o telemóvel ninguém lhe tira...
A quem é que esta criança estúpida irá ligar, daqui a uns anos, quando não tiver comida em casa?
Tudo o que escrevi em baixo é sublinhado por esta (vulgar)performance.

17 de março de 2008

WIND

Perguntam-me, em entrevista, se estou a escrever um novo livro.
Sim, digo. E depois de o dizer ficou tudo natural. Às claras.
Em cima, o título provisório. Aqui, um excerto (não revisto, claro), recolhido aleatoriamente:
" Passou um bando de pássaros por cima das nossas cabeças enquanto estávamos a tentar recuar no tempo, mas nenhum de nós foi capaz de lhe subir para as costas. Até que por fim, eu disse: Quis encontrar-me contigo para que pudéssemos, por uma vez na vida falar inteiramente verdade. Ele olhou para mim, as pálpebras pesadas, os papos debaixo dos olhos, as rugas a tapar a cara toda. E vi que isso nunca aconteceria. Lembras-te daquela viagem que queríamos fazer, um dia mais tarde? Sim, Gostava muito de a ter feito, de termos arranjado tempo, só os dois para andar aqueles quilómetros todos, dormir na beira da linha férrea, enfrentar a humidade e os insectos em nome de um afecto que um dia existiu, Sim, eu também gostaria de a ter feito. Queres um cigarro? Quero."
O TAMANHO DO MUNDO

Leio no Público que por ano desaparecem 27.000 espécies, enquanto, na televisão, os jornalistas me tentam convencer que as palavras de um político português em visita a um mercado "são da maior importância".
Ora, tenham dó. Ou pelo menos a noção das proporções...

13 de março de 2008

ALÔ...?! QUEM TÁ FALANDO...? É VOCÊ, DEUS?

Há pessoas que não entendem o papel do Vaticano na simplificação das nossas vidas.


11 de março de 2008

SETÔR

Tenho evitado falar em público sobre a questão dos professores. Porque me parece confusa e cheia de equívocos. De parte a parte.
A razão pela qual os professores saíram da modorra conformada em que, na sua generalidade, habitualmente vivem, tem pouco a ver com a avaliação em si. E o governo deveria ter percebido isso. Não creio que a maioria tenha grandes problemas em preencher folhas de auto-avaliação ou a ser avaliados pelas chefias. Embora saibam que a dinâmica das aulas é outra quando um corpo estranho se infiltra no grupo, todos eles (falo dos ensinos básico e secundário, já que no superior, ninguém recebeu qualquer formação para o que está a fazer...) já estiveram nessa situação aquando do estágio. E acredito que a maioria gostaria de fazer mais e melhor.
Os professores saíram para a rua porque na última década têm visto o seu trabalho a ser menosprezado. Uma geração filha de pessoas com pouca formação académica, mas o rei na barriga pelo 7º ano tirado aos coices, sediada nas franjas das cidades e vilas, tomou conta da escola. Uma escola fraca, democrática, estupidamente democrática, que não percebeu o que aí vinha. Hoje, as aulas estão cheias de desordeiros, vândalos, totalmente legitimados e desresponsabilizados pelos pais e pelo Estado. O limitte desapareceu. E quando algum professor tenta traçar uma linha é agredido, insultado pelos pais e processado pelo Ministério.
A juntar a isto, veio a ameaça de despedimento. A insegurança. A razão por que muitos aguentavam esta humilhação constante. E o medo está a empurrá-los para a frente.
Creio, sinceramente, que este governo socialista produziu mais reformas em Portugal, reformas de fundo, do que todos os governos dos últimos 30 anos juntos. Mexeu com tudo e com quase todos. E cumpriu, na sua generalidade, tudo aquilo para que foi eleito: meter ordem na casa. Falta-lhe, contudo, a sensibilidade para distinguir o essencial do acessório e de ver até onde o esticar da corda sufoca os mais fracos. E o de confundir o medo das pessoas com a manha preguiçosa dos sindicatos. Faz muito bem em não dar ouvidos à súcia que suga trabalhadores e estado há 30 anos, sejam eles CGTPs, Ugts ou quejandos. Mas precisaria de ouvir os professores e todos aqueles que dizem, "Queremos participar da mudança só não queremos desaparecer por causa dela".

7 de março de 2008

O QUE FAZ FALTA

Nos últimos tempos, a toda a gente que eu conheço: dinheiro.
A mim, também, mas o tempo juntou-se-lhe reclamando carência, raios o partam|

ps: Claro que o que faz mesmo falta... é avisar a malta... do que faz falta